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Espelho Meu

Espelho Meu

Sou eu, avó...

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11 de março de 2019:

- E esta menina, quem é? - perguntou uma das trabalhadoras do lar.

- É minha - respondes.

- Tua quê?

- Filha!

- E como se chama?

- Teotónio.

 

Foi assim na última visita.

 

São 19h38 e por esta hora eu costumava estar em chamada contigo. Falávamos todas as noites. Às vezes ainda olho para o relógio e, por breves instantes, penso: "está na hora de lhe ligar". Porque é que não atendes, avó? Sou eu, a tua neta. Espero que ainda saibas quem eu sou. Será que só te recordas da minha imagem ou lembras-te de tudo aquilo que nós vivemos?

Já passaram vários meses. E eu tenho para aqui uns quantos textos guardados nos rascunhos do meu blog. Provavelmente este será só mais um que ficará perdido. Eu pensei que fosse tudo passageiro. Estava tudo bem... Fui visitar-te, dançámos juntas e na semana a seguir o que é que aconteceu? Sentes-te perdida no meio de todos aqueles que estão a cuidar de ti. Eu sinto-me perdida ao tentar acreditar ainda te posso ligar para contar o meu dia. Atendes-me, avó? O teu telemóvel está desligado há meses. Ainda guardo o teu contacto na minha lista telefónica. Eu sei que um dia destes ainda te vou ligar a dizer "estou a sair de casa, espera por mim no café".

Os meus problemas eram sempre teus também. Eu esperava para receber uma nota e partilhávamos essa ansiedade. Lembras-te de quando entrei para faculdade? Disseste "ai, filha... o teu avô ia ficar tão contente". Eu sei que ele ficou. Tal como ficará com todos os meus sucessos. Tal como me ajudará a levantar em todos os meus fracassos. Será que ainda vais ouvir "avó, estou licenciada"? Oh, minha avó. Eu preciso de falar contigo. Quero saber como correu o teu dia e dizer-te que estou bem.

Na semana passada pregaste-nos um susto. Chorei quando soube que tinhas ido outra vez para o hospital. Não aguentei este aperto que tenho sentido nos últimos meses. Hoje o jantar é peixe cozido. Podes fazer o meu prato com tudo misturado e muito azeite por cima? Era assim que tu fazias. Não era, avó? Os papéis inverteram-me. Deixa-me cuidar de ti...

 

19 de abril de 2019:

Nunca mais escrevi desde este último texto. Ficou aqui perdido como tantos outros. Já não vou a tempo de o terminar. Faz hoje um mês desde que nos deixaste. Algum dia vou aceitar que já não estás aqui para me ouvir?

Estive um mês sem escrever. Tenho sempre tanto por dizer. Porque é que desta vez não consigo dizer-te aquilo que sinto? Não consigo aceitar. Tenho perdido muitas pessoas nestes últimos anos. Porque é que tinhas que me deixar também? Sinto uma revolta enorme. Minha avó. Querias tanto ver-me a acabar o curso. Querias ver-me feliz. O meu sorriso brilhava nos teus olhos. E tu brilhas ali em cima. Mandaste um beijinho ao avô? Eu pedi-lhe que te ajudasse. Olhei tantas vezes nos teus olhos e pedi que voltasses a ser tu. Porque é que não voltaste? Porque é que não voltas agora? Eu dou-te a sopa. Eu ajudo a cuidar de ti. Das últimas vezes em que te fui visitar a enfermeira passou-me o almoço para a mão e pediu que te desse a comida à boca. Senti frio e calor ao mesmo tempo, o meu coração acelerou, não controlei algumas lágrimas. Peguei na colher e disse-te que tinha sido eu a fazer. Disseste que estava bom. Numa situação normal tinhas soltado uma gargalhada e dizias "não foste nada". Lembrei-me de quando eras tu a dar-me o almoço. Foi assim que começou, não foi? Cuidavas de mim todos os dias porque os pais trabalhavam e a "casa da costura" era o melhor sítio para eu ficar. Obrigada por isso. Obrigada por tudo. Obrigada, minha avó.

Tenho sido muito forte. Deixaste-me a força que tinhas. Eu aguento, avó. Por nós. Mas hoje só quero que venhas aqui para me abraçar. Preciso de ti.

 

Lembras-te de mim? Sou eu, avó....

 

 

Hoje sorri por ti, avô...

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 Diz-se por aí que hoje é o Dia Mundial do Sorriso. Hoje lembrei-me de ti... E sorri quando imaginei as tuas mãos agarradas às minhas, pela última vez... Estavam pálidas mas tão macias. Olhas-te para mim e deste-me força. E eu não imaginava que seria a última vez que podia olhar para ti ainda com esse coraçãozinho mole a bater. Tu sorriste para mim e apertaste a minha mão com toda a tua força, sempre tiveste tanta força dentro de ti! Ironia do destino não é? Quatro dia depois da tua partida, é dia de sorrir... E eu sei que era isso que tu mais querias! Vamos cumprir com isso, promessa feita!

 

Sabes? No dia em que nos deixaste, eu ia visitar-te. Ia contar-te que entrei na faculdade, e tu ias sorrir enquanto o teu peito se enchia de orgulho. Ia levar-te o jornal como tinhas pedido para estares informado sobre as notícias das eleições. Ia dar-te um beijo e rezar para que não fosse a última vez.. Mas não consegui, já não fui a tempo. Este maldito bicho não te deixou continuar junto a nós. Tem levado tanta gente boa... levou o meu guarda costas, aquele que está aí em cima junto a ti a iluminar esta noite... e agora também te levou a ti.

 

"Vô", ainda tinha alguém para chamar de "vô". Mas agora tu também partiste, para um lugar onde brilhas ainda mais. Vamos ter saudades tuas, saudades da tua presença, saudades até do teu mau feitio (eu sempre desconfiei que tinha de sair a alguém, não é verdade?).

 

Tento pronunciar só mais uma vez esta palavra que tanta saudade traz para agradecer a pessoa que foste para mim e para todos nós... Vô, muito obrigada por tudo

Hoje trago saudade...

Hoje não trago novidades, não trago nenhuma recomendação de um filme ou de um livro, não trago bons momentos das férias, não trago dicas para o regresso às aulas. Hoje não trago nada mais além de uma grande saudade... saudade de quem me viu crescer, saudade de quem me criou, saudade de quem me ia buscar à escola todos os dias. Hoje trago uma grande saudade, saudade daquele abraço que tanto me confortava, saudade de um sorriso que se enchia de orgulho da menina dos seus olhos. Hoje faz 3 anos que foste para um sítio onde brilhas ainda mais. Meu anjo, meu avô... tenho tantas saudades tuas!

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