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Espelho Meu

Espelho Meu

Carta de Despedida

Hoje fui ver o mar. Fui até àquela praia onde costumávamos ir nas férias. Assim que cheguei imaginei que estavas ao meu lado, a correr atrás das bolas de berlim enquanto me ameaçavas mandar para água se te atirasse mais um único bago de areia que fosse. Eu provavelmente ainda estaria rabugenta porque na noite anterior tínhamos ido até ao bar da praia já depois das nossas duas bolas de gelado num cone (sempre diferentes para provarmos todos os sabores) e de umas voltinhas nos carrinhos de choque. Lembraste de quando deixei o meu telemóvel cair no meio da pista e tu saltaste para o meio daquela confusão para o salvares? – “Não me voltes a fazer isto!” – foi o que me respondeste. E quando me davas na cabeça por passar os dias a estudar? Ah, e que tamanhas saudades daquelas noites de calor, na casa do Norte, que enchiam o nosso quarto de mosquitos e ai de mim que os matasse! Recordaste de quando me davas o teu chapéu em troca da minha máquina fotográfica? E por falar no teu chapéu… esse ficou comigo sabes? Eu sei que sabes! Pedi-o à tua mãe no dia de manhã antes da tua partida, mal sabíamos que horas depois estaríamos a receber a pior notícia da nossa vida. Ai, a tua mãe… tu sabes bem como ela está, gostava tanto de ti… nós prometemos-te que iríamos cuidar dela, e não te vamos falhar com essa promessa!

 

Espero que tenhas visto as horas da tua despedida.

Na verdade, nem sei quantas pessoas lá estiveram. Desde a família, aos teus amigos, às pessoas que quiseram dar força aos teus pais e a todos nós e até esteve presente o nosso Presidente da República! Dr. Marcelo, muito obrigada pelo seu gesto tão bondoso e humano. Foi tudo como querias: nós íamos todos vestidos de branco e cinzento, e tu levavas aquela camisola personalizada com fotografias nossas que te demos no último aniversário quando te fizemos uma surpresa e aparecemos todos no centro de reabilitação onde estavas internado. Alguns de nós assinámos a tua camisola de Basket preferida, vamos emoldura-la e expô-la para que todos possamos relembrar.

 

Passaram alguns dias e ainda não consigo acreditar que isto é mesmo verdade. Porquê tu? Tinhas tanto por viver, tínhamos tantas gargalhadas para dar. Não é justo. Não aceito nem nunca vou aceitar. Porque é que tinha de ser assim? Lutaste tanto e pediste que te salvassem. Cancro, chamam-lhe eles. Maldito bicho, maldita sorte e maldita cura que nunca mais é encontrada! É uma revolta tão grande, queremos-te aqui outra vez. Durante quase dois anos tentaste “manda-lo embora porque não pagava renda” – palavras tuas. Mas não quero dar-lhe tempo de antena, a esta imbecil doença que tantas boas pessoas tem levado, e que te levou a ti também!

 

De ti só temos boas recordações, e vamos guarda-las para sempre, disso nunca tenhas dúvidas. Sempre com um sorriso, era assim que querias não era? Eu sei que era. Temos todos um orgulho enorme de ti, espero que saibas disso. Temos muitas saudades tuas e a cada coisa que fazemos há algo para recordar. O meu irmão pede todas as noites para ir ver a nossa estrelinha, tu! Depois do jantar vamos até ao quintal, nós choramos, ele acena ao mesmo tempo que liberta aquele sorriso tão puro, é como se tu estivesses mesmo ali, juntinho a nós! E estás, eu sei que estás. Mas ontem não estavas lá, ontem não havia estrelas, nem sequer a mais brilhante como todas as outras noites. O mano ficou triste por não apareceres. Nós esperámos, mas o céu estava demasiado encoberto. Não apareceste. Foi aí que percebi que mesmo com a tua ausência tínhamos de sorrir e pensar que estavas ali a ver-nos e a relembrar connosco todos os momentos que partilhámos. Hoje depois do jantar vamos voltar a procurar-te e mesmo que não voltes a estar lá, vamos despedir-nos de ti todas as noites.

 

16h41: acordei agora com uma chamada de um dos teus melhores amigos que quis saber quando é que era a missa do 7º dia. Tinha colocado o computador ao lado da cama enquanto relia o que já tinha escrito e acabei por adormecer. Tenho dormido tão mal nas últimas noites, sonho sempre com tudo isto e acordo mil vezes a pensar em ti.

 

Estou sentada na cama e a porta está aberta. Vejo a tua mãe a tentar descansar do outro lado. Sabes, hoje na praia atirou-me para dentro de água e disse que tinhas sido tu! E eu sei que foste, aquilo só podia ter sido pensamento teu. Parei de escrever e voltei a olhar para ela… Precisa de um abraço não precisa? Eu vou lá! Vou abraça-la com todas as minhas forças e dizer-lhe que estou aqui. Era isso que querias não era?

 

Eu sei que era…

 

Até já estrelinha, olha por nós...

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